15 maio 2007

Análise >> As Tartarugas Ninja - O Retorno (Teenage Mutant Ninja Turtles)

Após 13 anos, Leonardo, Michelangelo, Raphael e Donatello estão de volta aos cinemas, desta vez em animação digital, como há muito já se pedia. Antes de As Tartarugas Ninja – O Retorno, os três longas dos heróis mutantes - As Tartarugas Ninja (1990), As Tartarugas Ninja 2: O Segredo de Ooze (1991) e As Tartarugas Ninja 3 (1993) - foram realizados em live action, com atores reais.

Apesar do filme ser visualmente melhor e semelhante aos quadrinhos, o humor sarcástico, tão característico dos desenhos que fizeram sucesso na década de 90, foi deixado de lado. Isso torna difícil aceitar personagens tão sérios, mesmo por que as tartarugas ninja foram criadas pelo selo independente Mirage Comics como paródia de duas séries da Marvel: Novos Mutantes, sobre um grupo de mutantes adolescentes, e Demolidor, protagonizado por um clã ninja que defende Nova York...

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Em As Tartarugas Ninja – O Retorno, com a morte do arqui-rival Destruidor, os quatro irmãos estão perdidos quanto às suas ocupações: Donatello trabalha como help desk, resolvendo problemas de computador pelo telefone; Michelângelo anima festas de crianças com uma fantasia de tartaruga; Raphael está mais revoltado do que nunca: passa o dia inteiro dormindo e à noite varre os bandidos das ruas ao melhor (ou pior) estilo Justiceiro; e Leonardo foi enviado pelo Mestre Splinter para um treinamento na floresta da América Central para aprender a ser um grande líder. Indignada com a situação dos irmãos ninja, a repórter e fiel amiga April O'Neil vai em busca de Leonardo, mostrando a falta que ele faz para o desamparado grupo de heróis. Enquanto isso, estranhos eventos acontecem na cidade de Nova York e, para desvendá-los, Leonardo terá a difícil missão de redisciplinar seus companheiros e treiná-los antes da batalha que os espera.

O grande sucesso das Tartarugas Ninja deve-se ao desenho animado exibido na TV de 1987 a 1996, mais centrado no humor do que na violência, com cores mais alegres e luminosas, diferenciando totalmente do novo filme. Portanto, quem espera matar a saudade deixada pelos simpáticos e hilários mutantes verdes pode desanimar desde já. O foco da nova animação é o público mais novo, que acompanhou os episódios do desenho mais recente que estreou na televisão em 2003, mais violento, sombrio e com enredo mais complexo.

Enquanto perde-se de um lado, ganha-se de outro. As envolventes piadas foram deixadas de lado, mas as cenas de luta (uma delas ao som de Lights Out do P.O.D.) são mais trabalhadas e realistas, além das convincentes expressões faciais dos personagens e intensas cenas de ação. Caberá ao público definir que tipo de Tartaruga Ninja quer ver no cinema. Para os mais saudosistas, mantenham distância, enquanto os jovens devem sair correndo para a sala exibidora mais próxima.


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14 maio 2007

Análise >> 300

Um sucesso anunciado: o épico 300, de custos estimados em US$ 60 milhões, faturou nada menos que US$ 70 milhões somente no seu final de semana de estréia, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos. E não poderia ser diferente. 300 é o típico produto hollywoodiano nascido para faturar.

O filme é baseado nos cultuados quadrinhos criados por Frank Miller e Lynn Varley, que por sua vez foram inspirados pelo filme "Os 300 de Esparta" (estrelado por Richard Egan, em 1962), que por sua vez se baseou nos textos em que o historiador Heródoto narra a Batalha de Termópilas, 450 anos antes do nascimento de Cristo. Ou seja, tantos séculos e tantas adaptações depois, hoje é impossível separar o que existe de história, mitologia e hollywoodianismos na aventura épica 300. E isso nem é importante. O filme vale mesmo pela sua estilização visual, na qual tudo é assumidamente exagerado, over e rebuscado. Com várias tomadas em câmera lenta que parecem pinturas medievais, a direção de arte de 300 utiliza ao máximo os recursos visuais que o cinema contemporâneo oferece, tudo para que a tela gigante do cinema se transforme numa versão ampliada e movimentada dos traços que o público já aprendeu a amar nas graphic novels de Miller. Afinal, quando a Warner decidiu entrar no projeto, ela sabia que o retorno financeiro só seria possível se o filme atraísse os milhões de seguidores que Frank Miller tem pelo mundo. Diga-se de passagem, a Warner relutou muito em aceitar tocar o projeto, já que os executivos da empresa o achavam muito parecido com (o fracassado???) "Tróia". Felizmente, tudo deu certo. Ainda que ambos falem da Grécia e sejam histórias míticas, 300 é infinitamente superior a Tróia...

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Com alta tecnologia e cenários virtuais de rara beleza, o filme narra a saga do guerreiro espartano Leônidas (Gerard Butler), que desobedece a tudo e a todos para encarar uma guerra insana contra o imperador Xerxes (Rodrigo Santoro), da Pérsia. Ele seleciona seus 300 melhores guerreiros e – literalmente – vai à luta, em nome da liberdade e da independência de Esparta, mesmo sabendo da enorme superioridade numérica de seu oponente.

O escocês Gerard Butler (O Fantasma da Ópera) tem o vigor necessário para comandar não apenas seu exército como também a maior parte da ação do filme. A britânica Lena Headey (Os Irmãos Grimm) desfila o charme, a beleza e a inteligência necessárias à rainha de Esparta e o nosso Rodrigo Santoro exibe uma androgenia e uma elegância soberba que os brasileiros já conhecem de Carandiru. Méritos para o diretor Zack Snyder, neste que é apenas o seu segundo filme para cinema – o primeiro foi "Madrugada dos Mortos".

Como filho assumido dos quadrinhos, o filme 300 carrega consigo toda a alma dos traços estilizados criados por Frank Miller. São batalhas monumentais que fazem do violento Apocalypto uma tarde no playground, sangue aos litros, cabeças cortadas em profusão, belíssimos adereços e acessórios, além de movimentações de câmera estudadas sob medida para os fãs de videogames. Tudo isso transforma uma batalha épica acontecida há quase 2.500 anos num entretenimento sob medida para a camada da população que mais consome cinema no planeta: os jovens.

A importância dos efeitos é tamanha que 300 levou 60 dias para ser filmado e mais de um ano em pós-produção. Nada disso é problema. Lamentável mesmo é a mensagem bélica embutida no filme. Pode-se dizer que a beleza de sua forma é inversamente proporcional à mensagem do seu conteúdo, que com o seu visual arrebatador procura vender ao público um conteúdo amargamente bélico e rancoroso. Nas entrelinhas, o filme tenta legitimar toda a violência que vem sido cometida pelo governo norte-americano, que briga, guerreia, invade e mata, sempre em nome de uma suposta liberdade. Não é nada difícil identificar as mensagens cifradas em 300:

Filme: O Rei Leônidas, de Esparta, quer guerrear contra a Pérsia, embora o político espartano Theron prefira uma saída diplomática para o impasse o qual chegaram as duas nações. Tentando legitimar sua atitude bélica, Leônidas recorre a uma espécie de conselho de magos e anciãos, como que pedindo permissão e "benção" para o ataque. O conselho rejeita. Leônidas desobedece a todos e parte para a guerra assim mesmo.

Realidade: Bush quer invadir o Iraque. Setores moderados do governo propõem outras saídas. A ONU não permite. Bush invade assim mesmo, desrespeitando abertamente o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Filme: Em determinado momento da guerra, o povo Árcade, mostrado desde o início do filme como uma nação cheia de boa vontade, mas fraca como guerreira, abandona Leônidas e o exército Persa à sua própria sorte quando as coisas começam a ficar mais complicadas.

Realidade: Bush nunca escondeu o seu repúdio contra os países que se uniram ao EUA nos primeiros ataques ao Iraque que depois foram reduzindo ou até mesmo zerando seus homens no campo de batalha. O próprio ministro britânico Tony Blair, pressionado pela opinião pública, reduziu seus homens no Iraque, no mesmo momento em que Bush solicitava o envio de mais tropas.

Filme: Leônidas vai à guerra e deixa com sua esposa, a rainha Gorgo, a missão de fazer com que os políticos espartanos obtenham permissão para o envio de mais soldados, enquanto os famosos 300 seguram as pontas no campo de batalha.

Realidade: Como Bush em pessoa não vai ao campo de batalha, ele não precisa delegar essa missão a ninguém, mas o presidente dos EUA solicita repetidamente verbas e mais verbas para dar continuidade à sua guerra. Recentemente, em janeiro, ele pediu mais US$ 100 bilhões para dar prosseguimento à ocupação do Iraque.


Quando, na última cena de 300 (calma, não contarei nada que possa estragar o final), Esparta parte para um segundo, maior e mais destrutivo ataque contra a Pérsia, motivado pela coragem e audácia do primeiro ataque de Leônidas, fica clara a relação entre estes ataques e as duas guerras do Golfo, a primeira comandada por Bush pai, e a segunda por Bush filho.

Isso sem falar que quem narra toda a história é um guerreiro que perdeu um olho durante a batalha (logo, simbolicamente, só vê um lado da questão) e a Pérsia, hoje, equivale ao Irã, um dos atuais inimigos de Bush. Evidentemente, no filme, o guerreiro ensandecido Leônidas é o grande herói, enquanto o supostamente moderado Theron é pintado como fraco, corrupto e covarde.

É claro que a horda de adolescentes que está invadindo os cinemas do mundo inteiro para ver o filme não se importará nem um pouco com esta leitura política. A enorme maioria deles não faz idéia do que seja Esparta ou Pérsia, fora os que desconhecem quem seja Bush. É aí que mora o perigo... A tal história de "liberdade a qualquer custo em nome da democracia" já rendeu vários massacres de mentirinha nas telas nos cinemas e, de verdade, na vida real.


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14 dezembro 2006

Análise >> Efeito Borboleta 2 (The Butterfly Effect 2)

Depois de sua estréia na direção cinematográfica, em 1997, com Mortal Kombat 2, o cineasta John R. Leonetti passou quase dez anos se dedicando aos filmes de TV e a direção de fotografia, sua principal função dentro da indústria do cinema atualmente. Agora, ele se aventura novamente na direção em Efeito Borboleta 2, tentativa de pegar uma carona no bem-sucedido Efeito Borboleta, de 2004, que custou US$ 13 milhões e faturou mais do que sete vezes este valor nas bilheterias. Ficou na tentativa. Efeito Borboleta 2 padece do grande mal das continuações: falta de criatividade em relação ao filme anterior. Trata-se apenas de uma nova versão – agora piorada – de tudo aquilo que já foi visto no primeiro filme.

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09 dezembro 2006

Análise >> Ela Dança, Eu Danço (Step Up)

Primeiramente, tente não pensar no infeliz título baseado naquele hit do funk carioca tocado exaustivamente em rádios, festas e supermercados brasileiros. Não há nada de funk em Ela Dança, Eu Danço. Protagonizado por atores jovens e relativamente desconhecidos, o filme mistura elementos de musicais como o clássico Fama (1980) – referência já evidente na abertura do filme - e o mais recente No Balanço do Amor (2001) para contar uma história de amor que gira em torno da paixão dos personagens em torno da música e da dança.

Ela Dança, Eu Danço é previsível e certinho. Dirigido pela coreógrafa Anne Fletcher em sua estréia como diretora, o filme não apresenta nada de novo no gênero de filmes sobre dança. Mas, para quem gosta desse tipo de produção, chega a agradar, especialmente o público mais jovem. O argumento da produção trabalha em cima de uma história de amor entre um garoto pobre e uma menina rica. Ao mesmo tempo, as coreografias de Ela Dança, Eu Danço mistura passos do balé clássico ao moderno hip hop, criando um interessante panorama nesse sentido. A trilha sonora traz composições que misturam hip hop e acordes de instrumentos clássicos, como violino e piano. Existe algo de interessante no filme capaz de agradar aos que apreciam dança, mas, aos que não dão a mínima para produções do gênero, a previsibilidade do roteiro faz com que ele não seja nada interessante.

Tyler (Channing Tatum, de Ela é Demais) é um jovem da periferia que adora sair com seus amigos para dançar hip hop. Numa dessas “farras”, ele acaba cometendo atos de vandalismo numa escola de artes e é condenado a prestar 200 horas de serviço no local. Trabalhando lá como faxineiro, ele toma contato com esses jovens aspirantes a artistas e conhece Nora (Jenna Dewan, de O Grito 2), uma jovem que sonha com a carreira de bailarina. Com uma mãe que não entende muito bem suas aspirações artísticas, ela passa boa parte do seu dia se dedicando ao treino para uma apresentação final na escola que pode garantir não somente a conclusão do curso, mas um possível futuro na dança profissional. Quando seu companheiro se machuca, Nora resolve chamar Tyler para ser seu parceiro.

06 dezembro 2006

Análise >> Happy Feet: O Pingüim (Happy Feet)

Happy Feet: O Pingüim começa com uma cena musical que lembra demais Moulin Rouge – O Amor Em Vermelho!, segue nitidamente inspirado pelo clássico conto infantil O Patinho Feio, e depois se transforma num tipo de versão animada de A Marcha dos Pingüins. O que não chega a ser um demérito. O desenho tem, sim, suas qualidades.

Ambientado magnificamente (é incrível o que o desenvolvimento da computação gráfica tem conseguido!) no Pólo Sul, o filme mostra o nascimento de Mano (ou Mambo, na versão original), um simpático pingüim imperador que, contrariamente a todos de sua espécie, não sabe cantar. Ele sabe, sim, sapatear, mas esta habilidade é considerada estranha e até ofensiva no seu grupo social. Desta forma, Mano cresce como uma espécie de “nerd”, “perdedor”, ou, como diriam os norte-americanos, loser, incapaz de se ajustar socialmente. Porém, ao encontrar acidentalmente um grupo diferente de pingüins “latinos”, Mano vê uma luz nascer no fim da geleira.

Happy Feet: O Pingüim é um filme irregular. Brinda o público com imagens belíssimas, desenvolve personagens divertidos, mas traz um roteiro de certa forma desequilibrado, que demora para engrenar, se estende demais em determinadas seqüências e nos minutos finais tenta resolver tudo rapidamente.

Talvez o principal problema de Happy Feet: O Pingüim seja a busca desenfreada pela conquista tanto do público infantil como o adulto. Os produtores sabem que este tipo de desenho animado de alto custo (a estimativa é de que foram investidos US$ 85 milhões na produção) não pode correr o risco de fracassar nas bilheterias. E, para isso, necessitam agradar ao mesmo tempo pais e filhos. O que não é nada fácil. Nesta difícil tentativa, o filme levanta problemas que talvez sejam adultos demais para as crianças, ao mesmo tempo em que traz longas cenas de perseguição que talvez sejam cansativas demais para os adultos. Uma indefinição sempre perigosa.

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